Por Cleane Costa, jornalista e agente da Pascom da Paróquia São José
O padre Jorge Ivan do Nascimento está completando 35 anos de vida religiosa, dos quais 14 anos como padre, sendo 3 anos desse período na condução pastoral e espiritual da Paróquia São José, no bairro de José Américo, em João Pessoa. Mas o sacerdócio ministerial não foi um sonho acalentado na infância ou na adolescência, época em que o maior desejo era estudar. Além disso, não vem de uma família religiosa – os pais nunca o levaram, nem a seus irmãos, para participar de uma missa. Somente aos 14 anos de idade, tendo um pouco mais de autonomia, fez a Primeira Eucaristia e se crismou por vontade própria e sozinho. Após se formar em Contabilidade é que entrou no seminário. Nesse meio tempo, ainda noivou duas vezes.
Encardinado na Arquidiocese da Paraíba, o padre Jorge Ivan foi ordenado no dia 31 de outubro de 2012 pelo arcebispo da época, Dom Aldo Pagotto, de quem tem “saudosa memória”. Chegou à Arquidiocese da Paraíba no dia 1 de fevereiro de 2007 e se ordenou diácono no dia 27 de maio de 2012, durante a celebração de Pentecostes, no Ronaldão.
Ele é o primogênito dos cinco filhos do casal Jorge e Odete, nascido no dia 25 de abril de 1974 – mesmo dia em que a mãe nasceu –, na cidade de Ceará Mirim no Rio Grande do Norte, terra dos grandes canaviais. No entanto, nunca morou nessa cidade. “Minha mãe só foi pra lá mesmo para minha tia poder acompanhá-la no parto. Depois nós mudamos. Moramos na fazenda com meu avô, em um lugar chamado Taipu, também no interior do Rio Grande do Norte, até os 8 anos de idade. Depois nós mudamos para Natal”, recorda o padre Jorge Ivan.
O padre lembra ainda que em Natal foi onde morou a maior parte de sua vida antes de iniciar a vida religiosa. Foi onde deu início aos estudos e se formou em Contabilidade. “Quando eu vim para um seminário eu já era formado. Depois, no seminário eu me formei em Filosofia, pela Universidade Católica de Pernambuco. E a Teologia eu fiz aqui pelo Instituto da Arquidiocese da Paraíba Imaculada de Conceição. Tenho duas especializações: uma em Bíblia e outra em Catequese, pela PUC de Goiás”.
Padre Jorge Ivan acredita que não foi uma criança calma, mas também não chega a se denominar “treloso”, tendo em vista que criou três dos seus irmãos para sua mãe poder trabalhar na roça, enquanto seu pai trabalhava em Natal. Ele relatou que quando nasceu o primeiro irmão, Josivan, apelidado por Josa, ainda ia completar três anos. Então desse não teve condição de cuidar. Mas quando nasceu o segundo irmão, João Batista, já tinha cinco anos. “Fui eu que criei meu irmão João e minhas irmãs Gilvaneide e Juliene”.
Com carinho, o padre Jorge Ivan lembra que criou literalmente os irmãos: fazia comida dava banho, trocava fraldas – com todo cuidado para o broche usado antigamente não
furar a criança, botava a mão por baixo. Assim, não teve tempo de viver a infância, mas ao mesmo tempo considera que teve uma infância sadia: “Morávamos com o vovô na fazenda, então tudo era festa – tinha rio, tinha açude e tinha pescaria”. E era para esse lugar que voltava para passar suas férias depois que se mudou para Natal.
Outra coisa que ele lembra bem da sua infância é o desejo que tinha de estudar, porque naquela época a criança só ia para escola quando completava 7 anos. E assim que a idade chegou, começou a estudar. Como morava na fazenda do avô, para poder ir para a escola, a professora passava nas casas das fazendas pegando todas as crianças e as devolvia à tardezinha. “Estudei dois anos na fazenda com vovô e aí foi quando os meus pais mudaram para Natal, no final de 82. Era um outro ritmo, mas eu continuei estudando, eu gostava, para mim era uma alegria ir pra escola”.
O ritmo citado pelo padre Jorge Ivan é que quando foi morar em Natal o trabalho em casa aumentou. Justamente por ser o mais velho dos irmãos, o peso de cuidar da casa caía mais sobre ele. Como estavam morando na capital e a família era basicamente do interior, sua casa era uma espécie de “casa de passagem”, dando todo suporte aos que precisavam resolver alguma coisa em Natal, inclusive muitos familiares passavam tempo morando com eles. “Demorou muitos anos para ficar só a gente mesmo em casa”, comentou.
Iniciação religiosa – E quando foi que houve o despertar para vida religiosa? Como já foi observado no início do texto, se dependesse dos pais, esse desejo não seria despertado. Mas como vocação é um dom de Deus, padre Jorge Ivan ressaltou que sempre gostou de igreja, embora tenha sido criado sem participar dos ritos religiosos. “Não sou de uma família religiosa. Os meus pais nunca me levaram à missa, nem a mim nem aos meus irmãos. Nós não sabemos o que é Natal, nós não sabemos o que é uma Semana Santa. A Semana Santa até que sabia, porque a minha mãe inventava uma reza em casa antes de comer, mas eu não gostava dessa reza (risos)”, relatou.
E o motivo para não gostar da reza padre Jorge Ivan confessou que era porque apanhava da mãe. Sendo mais velho, ele já sabia rezar, enquanto os irmãos ainda não sabiam, e por isso ficava rindo deles. “Então apanhava porque na Semana Santa não podia mangar de ninguém”.
Ele contou que fez a Primeira Eucaristia e o Crisma sozinho, já com 14 anos de idade, exatamente quando teve um pouco mais de autonomia para sair. “Então, se eu dependesse de ser padre pelo incentivo, pelo testemunho da minha família, do meu pai, da minha mãe, isso nunca iria acontecer”, observou.
Lembra, no entanto, que na sua infância o momento de fé vivido era por intermédio de sua avó materna. “Nós morávamos na fazenda, e rezava-se todo mês de maio os 31 dias. Então todo dia a minha avó passava ou então uma senhora chamada Maria Gomes passava e me levava pra gente rezar o terço. Eu achava bonito. E tinha um programa de um padre chamado Padre Eimar, que era transmitido pela Rádio Rural de Natal e eu escutava. Minha mãe me dava banho, botava no tamborete e eu me sentava para escutar aquele programa e tinha vontade de ser padre, mas depois esse negócio foi-se embora”, narrou rindo.
Embora tenha seguido a vida sem pensar mais naquela vontade, sempre foi de igreja; e aos 17 anos começou a se dedicar à paróquia que frequentava – Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, em Felipe Camarão, pertencente à Arquidiocese de Natal. “Fiquei lá até o dia de ir para o seminário. E não era só um dia de missa; vivi a minha fé plenamente naquela paróquia”. Essa vivência com o tempo foi despertando alguma coisa que lhe inquietava. Ficou noivo duas vezes, mas não deu certo, essa não era sua vocação, embora quisesse ser pai, até porque havia criado seus irmãos e queria ser chamado de pai. “Sempre apaixonado por criança e eu sou até hoje”.
Antes de entrar no seminário, se formou e trabalhou num escritório de contabilidade em sociedade com um amigo durante muitos anos. Ainda estava terminando o curso, em 94, quando começou a trabalhar no escritório Âncora Contabilidade até o dia de ir embora para o seminário.
“Quando foi em 2000, eu disse: tá bom, eu não vou mais brigar com Nosso Senhor não; vou ver se esse negócio dá certo. Tomei essa decisão em 2000 e em 2001 eu fiz os encontros vocacionais com os missionários redentoristas e vim para o seminário”, contou o padre Jorge Ivan, adiantando que no início enfrentou a não aceitação dos pais, não pelo fato em si, mas porque não queria que ele saísse de perto deles.
E explicou a situação: “Meus irmãos já tinham casado; em casa só estava eu e minhas duas irmãs mais novas. Então meu pai e a minha mãe não queriam que eu viesse para o seminário e ser padre, porque não queriam que eu saísse de perto deles. É tanto que no dia que eu vim embora paro seminário, dia 21 de janeiro de 2002, nenhum deles estava em casa, meu pai saiu de casa e minha mãe também saiu”.
Os pais ainda estão vivos – a mãe com 77 anos e o pai com 76 anos –, moram em Natal, e já se acostumaram com a ideia do filho ser padre e sempre vêm em João Pessoa visita-lo. Inclusive, padre Jorge Ivan celebrou o casamento dos pais – que só eram casados no civil –, após muita insistência, e depois os 50 anos de união deles. O casamento foi celebrado em janeiro de 2014, com a família toda reunida. “Foi uma grande emoção, não só pra gente, mas para toda a família. A minha mãe tinha muita vontade, e papai é que ficava botando terra, mas deu certo. E no ano passado, eles completaram 50 anos de convivência, e aí eu celebrei uma missa também lá, para agradecer a Deus pela convivência deles”.
Padre Jorge Ivan contou ainda que não pretendia ser padre diocesano, mas sim um religioso. “Eu gosto da missão. Então eu optei pela Congregação Missionária Redentorista, fundada por Santo Afonso Maria de Ligório. São os que hoje estão em São Paulo, na Basílica de Aparecida. Meu primeiro ano foi em Campina Grande com eles, depois eu morei em Garanhuns, em Alagoas, e os últimos anos, antes de vir para João Pessoa, eu morava em Recife, onde concluí os estudos de Filosofia, que é o que na vida religiosa chama de postulantado (período inicial de formação e discernimento na vida religiosa)”.
Terminou o curso de Filosofia em 2006 e saiu da Congregação Redentorista, porém permaneceu em Recife. No final de 2006, veio em João Pessoa conversar com o padre Claudio Sartório e com o padre Luiz Antônio. Em 2007, chegou de “mala e cuia”, passando a morar com o padre Magela durante muitos anos, trabalhando com ele na Cúria Diocesana. Em 2008, começou os estudos de Teologia, vindo a concluir em 2011 e se ordenando em outubro de 2012.
Como morava em Manaíra, em uma paróquia, Dom Aldo Pagotto pediu que ele ali continuasse como vigário paroquial e assumisse a catequese da Arquidiocese da Paraíba. Também naquele ano estava tendo um Sínodo Diocesano e arcebispo o convidou para ser o secretário. Bastante atarefado, preferiu ficar como vigário porque queria aprender a ser padre. Só que isso durou três meses. Após voltar de férias, Dom Aldo pediu que ele assumisse a Paróquia São João Batista, no Mário Andreazza, em Bayeux. “Eu já tinha dito tanto não para Dom Aldo, ele já tinha me oferecido tanta paróquia e eu tinha dito tanto não, que eu fiquei com vergonha. Aí quando eu fui para a Paróquia São João Batista fiquei lá uns seis anos. De lá fui transferido também para Bayeux para antiga Paróquia Sagrada Família, no Jardim Aeroporto, que depois nós mudamos o nome para São Pedro Apóstolo. E de lá foi quando eu vim para cá em 2023 para a Paróquia São José”.
Lembrando um pouco mais da vida religiosa e das pessoas que fizeram parte dos momentos passados na Congregação Redentorista, padre Jorge Ivan contou que pregava muitas missões com o padre Zé Luiz, que hoje é bispo de Pesqueira, em Pernambuco; e com o padre Geraldo Freire, atual bispo de Iguatu. Quem também o acompanhou durante todo esse período foi o padre Francisco, hoje bispo de Cajazeiras.
Ele declarou que foi muito feliz na congregação, onde viveu aquilo que queria ser, fazendo missões como redentorista. Mas confessa ser hoje muito mais feliz sendo diocesano. “Às vezes eu brinco dizendo que se soubesse como era o negócio, queria ter sido diocesano desde o começo. Mas agradeço imensamente a experiência da vida religiosa. Não tenho o que reclamar, só agradecer a Deus e pedir a Ele que possa guiar os meus passos, que o Espírito Santo me faça um instrumento dEle”.
Mas antes de tudo isso acontecer, o rapaz Jorge Ivan participava de um grupo de oração chamado Jerusalém Celeste, no qual passou a frequentar no dia 22 de setembro de 1991. O grupo se reunia debaixo de umas mangueiras, no sítio de uma senhora chamada Segunda, a quem todos chamavam Vó Segunda, pois a Renovação Carismática na época não era bem vista por alguns padres, a exemplo do padre da sua paróquia, José Sianco, que não aceitava o grupo de oração na igreja. Em 1995, com a chegada do padre Salustino Soares, já falecido, o grupo voltou para a Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora. “Uma experiência que marcou profundamente a minha vida. Eu não tenho como falar de fé sem aquela experiência de viver a minha fé na minha paróquia, dentro da Renovação Carismática”, disse, lembrando que realizou muitos trabalhos em diversas funções dentro do grupo – onde também realizava missões pelo interior do estão – e da igreja.
Ele se considera apaixonado por Nossa Senhora Auxiliadora, a padroeira da paróquia que frequentava, e sempre que pode participa da sua festa, no dia 24 de maio. “Às vezes, para não ficar com tanta saudade, quando eu vou na casa do meu pai, antes de ir lá eu passo em frente à minha igreja matriz, solto um beijo para Nossa Senhora e vou embora”.
Também fez questão de lembrar o tempo em que estudou na Fundação Bradesco em 1989, “que contribuiu muito para minha formação enquanto pessoa humana”. Recordou que abriu uma unidade no bairro em que morava, na zona leste de Natal, até hoje um bairro pobre e marginalizado: “a Fundação Bradesco abriu uma escola daquele nível, daquele quilate, naquele momento da história, e transformou não apenas a minha vida, mas a vida de tantas crianças jovens e adolescentes, e a vida do bairro, porque nos deu formação de qualidade. Além de uma alimentação boa, além de tudo que um aluno precisa para ir pra uma escola, desde o fardamento ao material escolar, nós tínhamos grandes mestres e grandes professores. Eu faço questão de guardar no meu coração, encontrar e abraçar, mesmo depois de quase 40 anos. Até hoje nós mantemos esse contato”.
Padre pode ser pai? – Padre Jorge Ivan tem uma curiosidade na sua vida sacerdotal.Quando assumiu sua primeira paróquia como padre, em Bayeux, a São João Batista, entre tantas famílias que conheceu, estava a família de Andrézinho. A mãe dele se chama Dona Eva, que tem mais dois filhos, Alex e Maria, os quais criou sozinha depois de ser abandonada pelo marido ainda grávida. Na época, Andrézinho tinha entre 6 e 7 aninhos e participou da confraria dos Batistinhas, que, a exemplo dos Zezinhos da Paróquia São José, ajudavam na missa.
“Como era pequenininho, Andrézinho se apegou comigo e eu me apeguei com ele. Pronto, ficou na minha aba até hoje. Um dia ele perguntou se eu podia ser pai dele e eu respondi que sim. Fomos ao cartório e eu registrei ele como filho. Hoje ele está com 21 anos”, narrou, emocionado.


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